Hoje estou ouvindo Billy Joel - Just the Way You Are como trilha sonora. Para o meu momento, combina perfeitamente. Suave, me embalando enquanto sentada num canto da sala, olho pela vidraça, o quintal banhado de sol.
Vejo meu filho brincando. Observo seus cabelos negros como azeviche, suas mãos pequenas e macias, que naquele instante, brincam com água e imaginação. Sinto uma brisa morna entrando pela casa.
É um dia de verão. As nuvens se juntam aos poucos, formando um cinza denso do lado oeste. As pipas coloridas no céu, contrastam com o fundo cinéreo, e amedrontador.
Eu tenho um terraço onde o sol bate e alegra. E então, deixando minha preguiça de lado, plantei em jardineiras e vasos, mudas de morangos, coentro, feijões, um pé arredondado e encantador de buxinho, cravinas e outras coisinhas verdes, que não recordo agora o nome, mas que me fazem feliz e seguem verdejantes, refrescando meus dias.
Dia de luz intensa, de cores estampadas e saturadas na visão. Dia iluminado.
Não tive outra escolha: coloquei meu filho pra fora de casa.
Literalmente.
Desliguei o Wii, escondi o controle remoto da televisão, desconectei a internet. Coloquei uma bacia d'água onde batia uma sombra fresca e ele ficasse longe dos raios enfurecidos que o sol jogava hoje sobre a terra. Mergulhei alguns brinquedos, seus hotwheels dentro, canecos e pequenas tranqueiras.
Ficou lá, serelepe e contente, brincando de parque aquático, de lava rápido, ou do que fosse, tentando ficar mais ensopado do que se pode imaginar.
Nesses dias assim, abro as janelas, as portas e os meus olhos, para que o sol entre e inunde até minha alma. Estendi os panos e tapetes da casa e deixei que "quarassem" até esturricar. Depois de tantas notícias tenebrosas das terras de cá da parte ao sudeste do Brasil, de águas matando, destruindo, eu precisava mais do que nunca de sol. Muito embora lá, naquele canto oeste da cidade, as nuvens se reunissem, sinistras, prometendo mais água ao cair da tarde.
Mas ainda assim, nesse mormaço que envolve e quase sufoca, nessa iminência de ventos e trombas d'água que se aproximam afoitas, ainda assim não imaginaria estar em outro lugar. Não imaginaria não sentir esse sabor de casa. De se abandonar no calor, da rotina das tarefas domésticas e banais, na contemplação do corriqueiro, que de repente, num prisma de luz de verão, se torna tão mágico.
Gosto de tudo, do jeito que é. Gosto tanto, que tento captar e eternizar esses minutos com lápis e papel. Longe das tecnologias, dos bits e bytes, que soam mais como a urgência profissional, do que o prazer conhecido na mais tenra idade, quando fui apresentada aos lápis e blocos de desenho. Tudo se resume ao meu olho e minha mão, minhas melhores ferramentas.
Numa dança como um balé, eles trabalham, olho e mão, mão e olho e deitam no espaço em branco, os traços que traduzem até mais do que o desenho em si. Traduzem exatamente o que sinto.
Olho ainda de relance para o meu filho, numa dura luta de captar por segundos os seus trejeitos. Ora ele vira, ora senta, ora levanta, mas enfim minha lente mental capta mais de sua imagem que enternece meu coração de mãe, do que sua figura, sua forma exata.
Ele entra correndo, molhado, antes que eu possa impedir que respingue água por todos os lados no piso da sala. Mas voilá! Ele é tão feliz que não posso deixar de sorrir e ser também, com respingos e tudo.
-Que está fazendo, mamãe?
Viro, silenciosa, o bloco de papel para que ele veja.
Seus olhos brilham e ele sorri e se reconhece.
-Sou eu! Sou eu!
E volta para a água, numa pressa de quem tem o mundo para conquistar.
Eu também sorrio. Uma calma me inunda assim como o sol.
Gosto de tudo do jeito que é.
Exatamente assim.
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